Category Archives: livros

olá Primavera!

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Uma coisa de que me orgulho é que sempre pressinto as mudanças de estação: alguma coisa no ar me avisa que vem coisa nova, e eu me alvoroço toda, não sei para o quê.
Na primavera do ano passado ganhei de uma grande amiga uma planta, prímula, tão misteriosa que no seu mistério está contida a explicação inexplicável de uma presença divina: o segredo do cosmos.
Essa planta , que aparentemente nada tem de singular, é dona do segredo da natureza.
Quando se aproxima a primavera, suas folhas morrem e em lugar delas nascem várias flores fechadas. A cor é roxo-violeta e branco, e mesmo fechadas têm um perfume feminino e masculino que é extremamente estonteador.
O segredo destas flores fechadas é que exatamente no primeiro dia da primavera elas se abrem e se dão ao mundo. Como? Mas como sabe essa modesta planta que a primavera acaba de se iniciar? E as flores se abrem de repente. A gente está sentada perto, olhando distraída, e eis que elas vagarosamente vão se abrindo se entregando à nova estação, sob nossos olhos espantados. E a primavera então se instala.

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(Clarice Lispector)

Eu celebrei a chegada da Primavera com uma agradável passeio de bicicleta… E tive esta música na minha cabeça durante todo o dia!

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se eu não fosse farmacêutica…

… «A profissão que eu gostaria de exercer, se existisse, era a de inspector-geral de musgos, vadiar pelos bosques no Inverno a medir a espessura dos musgos, a campânula dos cogumelos, a voragem dos fungos por um raio de sol.»
(O voo melancólico do melro, Carlos Tê)

Podia aproveitar e também medir a altura dos mal-me-queres!

livros

Aprendi a ler bastante cedo. E para mim, já foi tarde. Dizia eu que quando soubesse ler ia ler todos os livros do mundo.
Li vezes em conta estes livros, as histórias do avozinho, que ainda devem andar na casa dos meus pais, dentro de alguma gaveta.
De tantas vezes me lerem os livros sabia muitas das histórias de cor e salteado.
Recordo hoje esta, que tinha um desenhos fabulosos!

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No Inverno faz frio, cai a neve. Mas a formiga está quente. Que importa que o vento uive, que chore, que se lamente? Nos dias lindos de Verão sabe tão bem trabalhar!!! O Sol ilumina a terra, e a formiga, grão a grão, fartou-se de enceleirar.
Agora que a chuva cai, que a neve com alvo manto cobriu todos os caminhos, a formiga, descansada, muito quentinha em seu canto, vai fazendo jantarinhos. Tem a casinha arrumada. O frio não chega até lá. De Verão correu apressada, mas agora, regalada, a despensa recheada, vive que nem um paxá. No fogão arde uma brasa. A mesa está bem posta, até abre o apetite. Do que é bom sempre se gosta… Lá fora a noite está escura, mas aqui não há negrura, a luz ilumina a casa.
Por isso meus amiguinhos, sigam este bom conselho, que lhes dá quem já é velhinho. O que é Verão para a formiga, para nós é mocidade. Façam todos como ela, trabalhem enquanto há Sol, em novos, na vossa idade. Depois, quando for Inverno, quando a velhice vier, gozareis como a formiga e que bem há-de saber… Ter um pezinho de meia, nem ralações nem cuidados, a dispensa sempre cheia, viver muito sossegados…
Trabalhai enquanto é tempo, não deixeis correr os meses. Lembrai-vos que há um ditado que é curto mas diz bastante: “Candeia que vai adiante… alumia duas vezes!!!”

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Sorrio.

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Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo que conhecemos muito bem. Se um cientista alienígena, recém-chegado às imediações de nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas económicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “líderes supremos”, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali – num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica.(…)
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(Carl Sagan)

pairs

«Quem não gosta de estar sozinho é uma péssima companhia.»
(Gonçalo M. Tavares)

Este belíssimo escritor editou estes 3 livros no mesmo dia. Apetecia-me ir a correr comprá-los, de enfiada!!!

sossego

Autumn in De Hoge Veluwe National Park

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Gosto de ‘sossegar’ como verbo transitivo. Sossegar só por si não chega. É mais bonito sossegar alguém. Quando se pede ‘Sossega o meu coração’ e se consegue sossegar. Quando se sai, quando se faz um esfor­ço para sossegar alguém. E não é adormecendo ou tranquilizando, em jeito de médico a dar um sedativo, que se sossega uma pessoa. É enchendo-lhe a alma de amor, confiança, alegria, esperança e tudo o mais que é o presente a tornar-se, de repente, futuro. É o futuro que sossega. «Amanhã vamos passear» sossega mais que «Não te preocupes» ou «Deixa lá, que eu trato disso». A aquietação, como o sono, é uma espécie de morte. Sossegar não é jazer. É viver. Uma pessoa sossegada é capaz de deitar abaixo uma floresta. O sossego não é um descanso — é uma força. Não é estar isolado e longe, deixado em paz – é estar determinado no meio do turbilhão da vida.O sossego é, em grande parte, uma expressão espiritual de segurança. Sossegar é saber com o que se conta, desde o azul do céu aos irmãos. O coração sossega em quem se conhece.
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(Miguel Esteves Cardoso, Explicações de Português)

Ando a reler este livro e sorrio com algumas passagens.
Amanhã vamos passear. Estou em sossego, hoje.

coisa sem nome

Hoje reli esta frase. E parece-me tão verdadeira…!
Dentro de nós há uma coisa que não tem nome. Isso é o que somos”.
(Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)