em Antigamente

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Vem cortar o cabelo?
Não, não venho, disse Mwadia e demorou-se: olhando em redor, a procurar pretexto para recomeçar: Ficou sem paredes, Mestre Arcanjo?
É melhor assim. Filhos da…
Travou o impropério, emendou a alma: afinal, era melhor assim. Desde que fora preso pela PIDE, ele nunca se afeiçoara muito a paredes. E depois, os miúdos sempre se encostavam ao muro para as desnecessidades.
Agora, é mais limpo, não cheira a nada, só cheira a cabelo.
O barbeiro ia tinindo a tesoura como se produzisse um compasso musical. De vem em quando, os olhos piscos patrulhavam as redondezas à cata de um inexistente cliente.
E Zero?
Lá está.
Tenho saudades do moço, nunca dizia nada e, assim, tinha sempre razão.
Ficou lá, em Antigamente.
Em quê?
Em Antigamente.
Morreu?
Não. Antigamente é o nome do lugar onde vivemos.
Nunca ouvi falar.
Fica do lado de lá do rio, do lado de lá da montanha.
(…)
»

Terminei há uns dias de ler este livro, “O outro pé da sereia” de Mia Couto. Salvei o livro do lixo. Uma colega minha ia deitá-lo fora porque achava que nunca o iria ler! Incompreensível…
Passa-se entre viagens de Antigamente a Vila Longe, entre Portugal, Goa e África. Mwadia e Zero Madgero. Entre fantasmas e realidades, entre mistérios e sentimentos. Uma passagem irónica pela fé transportada nas naus portuguesas para salvar os gentios, um mergulho nos costumes africanos ou nem tão africanos assim. Uma gargalhada no mundo globalizado. Muito bonito…

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